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# 64 - Beijar a cruz




"– Se não fosse pelo meu Joaquim, ninguém me apanhava a comer o cabrito de domingo na parvónia. – remata ele, balouçando nos calcanhares.

Apreensiva com as ameaças e irregularidades do terreno, a mulher vai de caminho comprar calçado. Além das chinelas de trazer por casa, só tem sandálias de verão, sapatos e botins de salto alto. Disse-lhe o filho que ao redor da casa é tudo pedregoso e lamacento, já para não falar da bicharada miúda que se agarra com patas e ferrões a qualquer naco de pele desnudada. Queixas e receios à parte, o casal Pereira até considera este um sacrifício necessário pelo bem da família. Sobretudo por Joaquim, neto mais lindo não há, concordarei certamente assim que o vir, as fotos não fazem jus. E já que a cada mortal Deus entrega uma cruz para alombar, seja esta a deles. A via sacra é que, caramba, escusava de ser na Beira Alta."
Do magnífico blog "Mãe Preocupada".

# 39 - A Utilidade do Humor





"... Do que a gente gosta é de histórias de pacóvios, pereiras, avós antigas, manicuras mal falantes, raparigas tontas engravidadas por malandros, cabeleireiras machistas, tudo o que nos faça dar graças pela nossa inteligência e superioridade, que ofereça algum consolo pela sorte que nos coube e que, volta e meia, dá ares de ser igualmente miserável. Do que a gente gosta é de pensar que está imune, acima ou adiante. É ilusão, mas ai de nós sem ela! Com que dignidade respiraria o homem douto descobrindo-se igual ao senhor Pereira? Seriam tão hermeticamente elevados os versos da poetisa que visse o esboço da sua melancolia nos olhos da rapariga tonta? Quem revela, de mote próprio e olhos nos olhos, a sua banalidade, o seu sonho idiota, as suas poses de pin up ao espelho, o orgulho bacoco com que tira o automóvel novo da garagem? Quem, enfim, confessa que, em dias de cansaço e descrença, pousa a espada sobre a cabeça dos inocentes?"

in Mãe Preocupada

Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros.
Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser.
Este é o momento para o cigarro que não fumo.
Inspirar [fundo], expirar [calmamente].
Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens.
Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).




Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.

Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.

Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.