# 82 - A morte nunca existiu



"...aqueles que faleceram na alegria e na esperança ninguém os chora, e o seu cortejo fúnebre é acompanhado de cânticos recomendando a sua alma a Deus. De seguida, o seu corpo é queimado com respeito, mas sem lamentos, e ergue-se no local uma estrela onde estão gravados os títulos do defunto, De regresso a casa, lembram as suas ações e os traços do seu carácter, insistindo, entre os episódios da sua vida, na serenidade com que morreu. Esta comemoração de uma conduta virtuosa é para os vivos a mais eficaz exortações ao bem e a melhor homenagem que se pode prestar aos mortos. Estes estão presentes quando deles se fala, invisíveis apenas ao olhar pouco penetrante dos mortais. Os Bem-aventurados não se privariam do poder de se ransportarem onde querem, e cometeriam falta de ingratidao se não desejassem rever aqueles que lhes estiveram ligados na terra pela ternura e pelo amor mútuos, sentimentos que, pensam eles, devem subsistir após a morte, entre as pessoas de bem, num grau acrescido, não diminuído. Vêem assim os mortos a circular por entre os vivos, testemunhas dos seus actos e das suas palavras. Esta fé na presença tutelar dos mortos inspira-lhes mais confiança nos seus empreendimentos e desvia-os de fazer o mal em segredo."

# 81 - "It could be worse"




"Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral.
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.

A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo."
Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros.
Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser.
Este é o momento para o cigarro que não fumo.
Inspirar [fundo], expirar [calmamente].
Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens.
Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).




Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.

Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.

Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.