Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios ao coração de tudo, ao centro das coisas, pária das fábricas e da hulha, da sua modesta infância e do seu agregado proletário arrastado por uma visão tardia, pelo sorriso familiar da calçada, não deixando de ser estranho entre os párias urbanos como um solipsismo, como uma velha cabine telefónica icónica mas não menos divergente entre a gente. Ele anseia por um lar deixadas que foram várias casas bombardeadas e a sirene infernal de alerta máximo zumbindo nos corpos calcinados dos lentos catres onde as plúmbeas contorções dos corpos são cubistas e cubistas os catres sobre eles. Ele está muito a tempo de alguma coisa embora as pernas lhe vacilem, apenas passou de além para aqui com um fito indeterminado, um modo de fazer sentido sem a senha do passado necessário, sem a cicatriz social, sem um alinhavo de perfídia. Este é um passageiro frequente dos faux-pas. Uma prostituta faria os seus avanços com mais segurança.
Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros. Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser. Este é o momento para o cigarro que não fumo. Inspirar [fundo], expirar [calmamente]. Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens. Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).
Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.
Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.
Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.