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# 32 - Isn't a pity?






«Enquanto estivermos a perder tudo bem, enquanto continuarmos a ser derrotados estamos a salvo. Alinhemos na facção de Tecnotron ou na de Naturachu, ser derrotados significa, tão-só, que ainda estamos vivos. Que haverá mais episódios. A vitória, como o encontro amoroso nas séries que vivem na tensão entre as duas personagens principais, é apenas sinal de que não haverá mais temporadas. Estarmos à beira do abismo significa isso mesmo: estamos à beira do abismo, não no abismo. Aleluia. Estamos vivos. Estar vivo é estar à beira do abismo. Não há alternativa. Afastemo-nos do abismo - e estamos mortos. Lancemo-nos no abismo e, provavelmente, vai dar ao mesmo.»

# 26 - A instalação do medo






"Agora, sou eu que tento esconder o meu crime - estou eu a perder a razão. Sim, tento escindê-lo. Por vergonha? Provavelmente. É lógico: todo o criminoso tem medo de ser apanhado. Por que motivo eu, que cometi o maior dos crimes, não teria também medo de ser apanhado?
O maior dos crimes. Uma doença mental é sempre o pior dos crimes. Neste caso uma que nos apaga o cérebro como uma borracha a palavras mal escritas.
"Lembra-se do que fez ontem?"
"Não."
"Isso é o que dizem todos, para se fingirem inocentes."
E estarão certos, os nossos acusadores. Não me lembro do que fiz ontem, não me lembro que nome dar ao lavatório (por acaso ainda lembro, lavatório, era apenas um exemplo), não me lembro de nada. Querem melhor prova do crime?
Agora, estremeço de medo a cada vez que vejo uma pessoa cumprimentar-me e tardo a reconhecê-la. Por enquanto tenho conseguido dissimular bem a doença. Mas... e quando não o conseguir mais fazer?
Até já tenho medo de me aproximar de espelhos. Não por medo de não ver lá o meu reflexo. Isso (ainda o sei) são os vampiros. Evito espelhos por um medo muito pior.
O medo de não me reconhecer ao espelho. De só lá encontrar, na imagem reflectida, sorrindo gorda e satisfeita, a doença."
Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros.
Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser.
Este é o momento para o cigarro que não fumo.
Inspirar [fundo], expirar [calmamente].
Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens.
Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).




Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.

Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.

Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.