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# 93 - A histórica exportação das fogueiras de São João


Naquele lugar servem-nos tabaco em lugar
de vinho
em Porto Rico cheira a erva santa de Santo
Domingo
tão doce e sentida, chupada e contida no peito
tão só
sorvem como sumos pelas bocas em fumos pelos narizes
em pó
por baixo das linhas quentes tropicais são mais
cristalinas
música de búzios, dos atabalinhos, de campaínhas e buzinas,
transmarinas

Escarabulha, salta, pula, pincha, fazem muitas mil doidices, quem o disse?
De tal maneira a marinhar p´ra não se deitarem ao mar
Uns atavam-nos uns aos outros,
pelas gambias, pelos cotos
Esvoaça, avoa, abeija a ala pelas ventas extasia, quem diria?
Imitam aves o que é raro
e eu até sofro do faro
Um vai tonto e outro tolo
pois tanta côdea é pró miolo

A chusma de gulosos dedilha folhas secas, viciosos
canudinhos
em extase escondidos de tudo areou perdeu o tino
dos caminhos
e andamos ao pairo sem norte nem sol no desvairo
das folias
se o piloto trás dois nortes pelo seu sol outro em sua
fantasia
e as ilhas deste mundo sem bóias que as prenda lá no fundo
deste mar
andam sobre as águas bailam pelas fráguas como bóias a bailar
a boiar

Escarabulha, salta, pula, pincha, fazem muitas mil doidices, quem o disse?
De tal maneira a marinhar p´ra não se deitarem ao mar
Uns atavam-nos uns aos outros,
pelas gambias, pelos cotos
Esvoaça, avoa, abeija a ala pelas ventas extasia, quem diria?
Imitam aves o que é raro
e eu até sofro do faro
Um vai tonto e outro tolo
pois tanta côdea é pró miolo

# 70 - Estação Agronómica



«MOTE

— Onde nasceu a ciência?...
— Onde nasceu o juízo?...
Calculo que ninguém tem
Tudo quanto lhe é preciso!

GLOSAS

Onde nasceu o autor
Com forças p'ra trabalhar
E fazer a terra dar
As plantas de toda a cor?
Onde nasceu tal valor?...
Seria uma força imensa
E há muita gente que pensa
Que o poder nos vem de Cristo;
Mas antes de tudo isto,
Onde nasceu a ciência?...

De onde nasceu o saber?...
Do homem, naturalmente.
Mas quem gerou tal vivente
Sem no mundo nada haver?
Gostava de conhecer
Quem é que formou o piso
Que a todos nós é preciso
Até o mundo ter fim...
Não há quem me diga a mim
Onde nasceu o juízo?...

Sei que há homens educados
Que tiveram muito estudo.
Mas esses não sabem tudo,
Também vivem enganados;
Depois dos dias contados
Morrem quando a morte vem.
Há muito quem se entretém
A ler um bom dicionário...
Mas tudo o que é necessário
Calculo que ninguém tem.

Ao primeiro homem sabido,
Quem foi que lhe deu lições
P'ra ter habilitações
E ser assim instruído?...
Quem não estiver convencido
Concorde com este aviso:
— Eu nunca desvalorizo
Aquel' que saber não tem,
Porque não nasceu ninguém
Com tudo quanto é preciso!»

# 65 - À procura de várias revoluções, com fé em realizar (algumas) utopias




"Avaliamos tudo em dinheiro, o que nos leva a praticar uma quantidade de ofícios totalmente inúteis e supérfluos, que mais não são que serviço do luxo e do prazer. Esta multidão dos operários de hoje, se estivesse repartida pelos sectores que utilizam verdadeiramente os produtos da Natureza para o bem de todos, criaria tais excedentes que o abaixamento dos preços impediria os operários de ganhar a vida. Afectem-se a trabalhos úteis todos aqueles que não produzem senão objectos supérfluos e, além deles, toda essa massa que se entorpece com a ociosidade e na mandriice, gente que esbanja todos os dias, do trabalho dos outros, o dobro do que aqueles que produzem e consomem, e logo vereis quão pouco tempo é necessário para produzir na quantidade necessária as coisas indispensáveis ou apenas úteis, desde que este seja são e natural".

# 42 - Crónicas sobre a fé numa terra ardente



"E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado
ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas

E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos
ou seria das silvas
do gengibre do benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo
ou seria dos dias
muito quedos
sem fim
das noites
muito melhor
assombradas
assim
porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce"
Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros.
Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser.
Este é o momento para o cigarro que não fumo.
Inspirar [fundo], expirar [calmamente].
Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens.
Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).




Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.

Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.

Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.