No príncipio era o Verbo (e os açúcares e os aminoácidos). Depois foi o que se sabe. Agora estou debruçado da varanda de um 3º andar e todo o Passado vem exactamente desaguar neste preciso tempo, neste preciso lugar, no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica ou de biologia dá-me para a mais inespecífica forma de melancolia: poesia nem por isso lírica nem por isso provavelmente poesia. Pois que faria eu com tanto Passado senão passar-lhe ao lado, deitando-lhe o enviezado olhar da ironia?
Por onde vens, Passado, pelo vivido ou pelo sonhado? Que parte de ti me pertence, a que se lembra ou a que esquece? Lá em baixo, na rua, passa para sempre gente indefinidamente presente, entrando na minha vida por uma porta de saída que dá já para a memória. Também eu (isto) não tenho história senão a de uma ausência entre indiferença e indiferença.
"Volto, pois, a casa. Mas a casa, a existência não são apenas coisas que li? E o que encontrarei se não o que deixo: palavras? Eu, isto é, palavras falando, e falando me perdendo entre estando e sendo. Alguma vez, quando havia começo e não inércia quando era cedo e não parecia, as minhas palaras puderam estar onde sempre estiveram: no apavorado lugar onde sou o silêncio."
"Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. Que coração, no entanto, pode repousar com o restolhar de asas no telhado? A dúvida agita os cortinados e nos sítios mais íntimos da vida acorda o passado. Porquê, tão tardo, o passado? Se ficou por saldar algo com Deus ou com o Siabo e se é o coração o saldo porquê agora, Cobrança, quando medo e esperança se recolheram também sob lembranças extenuadas? Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas, e de poços, e deportas entreabertas, e sonham no escuro as coisas acabadas."
Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros. Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser. Este é o momento para o cigarro que não fumo. Inspirar [fundo], expirar [calmamente]. Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens. Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).
Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.
Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.
Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.