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# 44 - A loja do mestre Hermeto "abriu" em Espinho




a loja do mestre Hermeto
tem a forma dum coreto
ele usa búzios do mar
com zumbidos de insecto
junta guizos de embalar
ao som do martelo-pilão
e assim ele faz
assim faz a percussão

a loja do mestre Hermeto
tem ao balcão um cigano
tocando a sua guitarra
tem a cauda dum piano
em cima duma fanfarra
tudo junto em sintonia
assim faz a harmonia

anda, vem daí
vem daí, vou-te levar
à loja do mestre Hermeto
anda, vou-te levar

na loja do mestre Hermeto
há o canto dum riacho
um compasso corredor
há um galho contrabaixo
há um canário tenor
é quem mais se desafia
um canário tenor
disputando a melodia

vem daí vais-te passar
tu nem vais acreditar
à loja do mestre Hermeto
vão doutores e analfabetos
na lógica do mestre Hermeto
a música não tem classe
é uma casa de passe
onde se passam carretos

A versão do disco voador dos Clã: https://bit.ly/2NhxZBa
O último do Hermeto Pacoal & Grupo: https://youtu.be/B17bz0x21dA

# 39 - A Utilidade do Humor





"... Do que a gente gosta é de histórias de pacóvios, pereiras, avós antigas, manicuras mal falantes, raparigas tontas engravidadas por malandros, cabeleireiras machistas, tudo o que nos faça dar graças pela nossa inteligência e superioridade, que ofereça algum consolo pela sorte que nos coube e que, volta e meia, dá ares de ser igualmente miserável. Do que a gente gosta é de pensar que está imune, acima ou adiante. É ilusão, mas ai de nós sem ela! Com que dignidade respiraria o homem douto descobrindo-se igual ao senhor Pereira? Seriam tão hermeticamente elevados os versos da poetisa que visse o esboço da sua melancolia nos olhos da rapariga tonta? Quem revela, de mote próprio e olhos nos olhos, a sua banalidade, o seu sonho idiota, as suas poses de pin up ao espelho, o orgulho bacoco com que tira o automóvel novo da garagem? Quem, enfim, confessa que, em dias de cansaço e descrença, pousa a espada sobre a cabeça dos inocentes?"

in Mãe Preocupada

Fragmentos de «uma autobiogradia sem factos». De Bernardo Soares. Mas também de outros.
Dia sim, dia não. Dia sim, dia sim. Dia não, dia não. Quando eu quiser.
Este é o momento para o cigarro que não fumo.
Inspirar [fundo], expirar [calmamente].
Ouvir, em vez dos pássaros, o som ordenado das pautas escritas com os punhos dos Homens.
Qualquer relação entre texto e música poderá ser mera coincidência (ou não).




Disclaimer 1: Este espaço serve ao autor para uma "releitura" de trechos de textos literários ao som de peças musicais, numa conexão que poderá parecer não ter sentido para o leitor. Uma explicação poderá ser encontrada após o contacto com o animador do blog. Ou não.

Disclaimer 2: Os textos, registos sonoros e audiovisuais aqui utilizados pertencem exclusivamente aos seus autores originais.

Disclaimer 3: A imagem que ilustra o topo desta página pertence ao magnífico trabalho de Manuel Casimiro.